Sobre este artigo
Esta crônica integra as ações de registro e salvaguarda
do patrimônio afetivo da Cidade de Deus. O texto foi inspirado na primeira roda
de escuta e memória com idosas da comunidade.
- Iniciativa:
CEACC, Casa de Cultura Cidade de Deus e Casa de Santa Ana
- Parceria e Consultoria científica para pesquisa-ação: Coletivo de Pesquisa
Construindo Juntos
- Anfitriã
de Lançamento: Casa de Santa Ana
- Autor
e Pesquisador: Wellington de Moraes França

Crédito das imagens: Wilson Freitas
Sala quieta. Raios de sol cruzam as janelas e pousam nas
poltronas floridas.
Sentadas em círculo, mulheres com
idades no entorno dos sessenta, outras quase centenárias, recém-saídas da
ginástica semanal e de um afetuoso café preparavam-se para dar início a algo
maior: a primeira grande partilha de memórias da Cidade de Deus. A ONG, que há
anos funciona como um porto seguro diurno para as idosas do território, parecia
prender a respiração. A confraternização com o lanche aos poucos cede lugar a
um silêncio grávido de expectativas. Aquela não era apenas mais uma terça-feira
comum; era a manhã em que o passado pediria licença para ser dito em voz alta.

O silêncio, descortina-se pelo
barulho metálico de um instrumento artesanal que parecia ter saído de um túnel
do tempo. Nas mãos do animador da roda, reluzia um objeto de arte: a engenhoca
feita de pedaço de cabo de vassoura cravado de pregos e tampas amassadas de
garrafa de vidro, herança viva de uma antiga aula de Educação Artística na
escola primária outrora Juliano Moreira, hoje, Dorcelina Gomes em homenagem à
uma das suas mais antigas merendeiras, ganhou uma inédita função ali. Embora a
oficina de percussão das idosas acontecesse em outro dia da semana, o ritmo já
estava no ambiente. Assim, naquele momento, o instrumento simula um microfone.
Quem o segurasse, passava a ter o direito sagrado da palavra e do tempo.
O mic improvisado chacoalhou as
tampinhas uma última vez antes de pousar nas mãos da primeira idosa. Ao segurar
o cabo de vassoura, os olhos dela pareciam enxergar através das janelas
ensolaradas, buscando uma Cidade de Deus que não existe nos mapas de hoje. A
voz começou mansa, trazendo de volta o tempo em que o asfalto era chão de terra
batida e o entretenimento dependia da imaginação. Falou de um lugar onde as
calçadas pertenciam ao pique-esconde, queimado, amarelinha e bolas de gude. telefones
feitos de barbante e lata. Latas de sardinha emendadas, viram pequenos vagões
de trem e latões se fazem de tambores nos carnavais de rua. O silêncio da sala se fez ainda mais terno
quando ela resgatou as tardes dedicadas a caçar joaninhas e ao cair da noite, vagalumes.
Seu relato engatilhou em outros presentes, grilos acolhidos em caixas de
fósforos, captura de rãs e pesca de barrigudinhos no Rio Grande. Colheita das
Taiobas como reforço na comida misturada aos espetinhos de tanajura. Os chás de
ervas colhidas pela mãe às margens dos rios locais, erva cidreira e capim
santo. Bastou a primeira lembrança para que o círculo
de poltronas floridas ganhasse vida. As vozes começaram a se entrelaçar, uma
completando a frase da outra, rindo juntas e costurando os retalhos daquele
passado comum.
Cada vez que o microfone
artesanal trocava de mãos, a sala parecia encolher o mundo e expandir o tempo. Vieram
os “Chifrudos” alusão aos ônibus elétricos da CTC. O “Cata-mendigo” referente
aos ônibus da Redentor que faziam as linhas circulares entre CDD e Freguesia.
O senhor, antigo trabalhador do
mercado, Três Poderes relembrou quando as doações de legumes enchiam caldeirões
para sopões comunitários. Ele que em outra ocasião desafiou a morte após ter
sofrido um atentado. Sobreviveu para virar o jogo e se tornar uma referência
viva no futebol local e profissional. O corpo que resistiu à violência, relata
confiante: “agora também sou conhecido como O Zezé do CEACC!”
Logo depois, a rota da memória
viajou milhares de quilômetros. A jovem senhora Lourdes, gestora da Casa de
Santa Ana, nossa anfitriã, ela com nome de origem francesa que muito preza,
contou que veio lá do sertão da Paraíba, “de onde o vento faz a curva”, na
carroceria de um pau-de-arara, confessou que, naquela travessia poeirenta,
jamais ousaria sonhar que um dia veria seus descendentes nascendo no frio da
Noruega. A fome da viagem nordestina abriu espaço para a fome de saudade de
outro presente, Seu Luiz Presidente da Casa Cult CdD, que resgatou os cheiros e
os sabores de uma Bahia e de um Nordeste que parece estarem sumidos do mapa - comidas
típicas e temperos lentos que a tal pressa contemporânea, hoje ditada por algoritmos,
já não sabe fazer.
A atmosfera na sala mudou de tom
no primeiro sopro da última voz. "Eu não tive infância", disse a
senhora, quebrando a leveza anterior com a crueza de uma verdade nua. Vinda da
roça com uma família sem estudo, sua rotina de menina ignorou as brincadeiras;
restava-lhe apenas trabalhar dia e noite. Lembrou-se de quando tentava estudar,
mas o cansaço vencia e ela dormia sobre os livros na escola. Contou sobre os
insultos, as dores e as discriminações que engoliu ao longo da jornada. Mas não
havia autopiedade em seu tom, apenas o orgulho de quem, juntando centavo por
centavo do suor de seu trabalho, conseguiu realizar o maior sonho de sua vida:
comprar a sua própria casa, ali mesmo, na Cidade de Deus.
Sob os raios de sol daquela manhã
de terça-feira, a sala mergulhou em um silêncio reverente. A Cidade de Deus,
tantas vezes narrada pelo olhar da pressa e da violência das notícias, ali se
refazia pela ótica do afeto, do triunfo e da diversidade. Aquelas pessoas não
eram apenas sobreviventes. Enquanto o microfone artesanal descansava, ficava o
eco da maior lição daquele dia: a história viva daquele território pulsa
guardada no peito de quem transformou terra batida em lar, fincou alicerces
onde o vento faz a curva e transformou suas cicatrizes em vitória.
Nota de Agradecimento e
Patrimônio Afetivo:
Esta crônica não existiria sem a generosidade, os sorrisos e
a partilha de memórias das idosas da Casa de Santa Ana na Cidade de Deus, cujas
trajetórias de vida e relatos orais foram a matéria-prima e a verdadeira
inspiração para este texto. A autoria literária é de Wellington França, mas a
memória viva pertence ao território.